foradogancho
  

Se ele fosse meu namorado

 

 

Trabalharia três vezes mais achando que isso faz algum sentido

Jamais participaria novamente de uma conversa do tipo “putz, a vida é foda”.

Iria à academia aos sábados.

Faria cara de dúvida diante do convite para uma festa SUPER legal na sexta à noite.

Soltaria um retumbante não para o convite de uma festa SUPER legal no sábado à noite.

Torceria para que todo o domingo fosse chuvoso.

Torceria que todo dia fosse chuvoso.

Aprenderia a cozinhar de verdade.

Aprenderia a dirigir.

Aprenderia chinês-mandarim.

Voltaria a achar casais lindos.

Acompanharia as conquistas pela união civil.

Começaria a gostar de cachorro.

Iria a estádios de futebol.

Ficaria em casa achando lindo só porque ele está cansado.

Suportaria mais uma mãe além da minha.

Gostaria de mais uma mãe além da minha.

Acharia legal falar “minha sogra”.

Esnobaria todo mundo que me olhasse na balada.

Deixaria de pintar os olhos.

Começaria a achar fofo pêlos nas costas (inclusive os meus).

Começaria a achar as coisas fofas de novo.

Seria uma fonte inesgotável de comentários esperançosos.

Esqueceria como é chorar todo dia antes de dormir.

Daria um tempo das “músicas-catástrofe” do David Bowie.

Pensaria em adotar uma criança.

Moraria em casa térrea de novo.

Cuidaria de plantas.

Teria mais paciência com os outros.

Teria mais paciência comigo mesmo.

Esqueceria definitivamente dos meus fantasmas.

Contaria minha vida para alguém com tom de quem deixou tudo para trás.

Passaria noites acordados ouvindo a respiração e o coração bater.

Pararia de tomar remédio para dormir.

Faria terapia três vezes por semana para garantir de não estragar tudo.

Jamais falaria para os meus amigos solitários coisas do tipo “ainda vai acontecer com vocês” – isso é mentira.

Não perderia meu tempo fazendo uma lista como esta.

Provavelmente o perderia em três dias por ser tão carinhoso e solícito.  

Escrito por De Luxe às 16h39
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Acaba somente quando eu disser “fim”

 

“Eu não tinha registros de tê-lo visto antes do dia em que nos conhecemos e nunca mais o vi depois que ficam juntos naquele dia. Isso acaba se traduzindo num mistério e mistifica tanto sua figura que tudo fica mais poderoso e difícil de esquecer. E isso não ajuda em nada”.

 

 

Faz dois meses que eu venho criando na minha cabeça, com doses generosas de criatividade e loucura, a figura de uma pessoa que eu não conheço de fato. Tracei sua personalidade, criei seus hábitos, interpretei suas palavras, tudo sem saber o que realmente ele sentia ou o que tinha a dizer. Já tinha feito isso antes. Mas desta vez era diferente. Ou ao menos eu queria que fosse. O fato é que durante esse tempo eu me preparei para um reencontro que seria horrível para mim. Uma situação na qual eu não sabia que lugar teria. Certa vez sonhei, com linearidade desconcertante, com a situação como eu temia que ela se desse. Uma festa, eu, meus amigos, outras pessoas, ele, um outro homem, eles juntos, nós sem nos olharmos ou mesmo nos cumprimentarmos, eu obrigado a testemunhar os carinhos trocados entre eles e vê-los indo embora, para a casa do outro, do mesmo jeito que um dia nós tínhamos trocados carinhos sob o testemunho de outras pessoas para, por fim, deixarmos a festa rumo à minha casa. No sonho eu não vi seu rosto em momento algum, e me lembro de me sentir forçado a fingir não sentir nada em relação aos acontecimentos. Criei uma simbologia sobre isso. Não ver o rosto dele dizia respeito à distância entre nós, e não poder sentir nada remetia diretamente à urgência de esquecer tudo.

Pouco aconteceu na minha vida afetiva desde o dia em que nos encontramos. Na verdade – o que é engraçado – talvez tenha se sucedido mais nesses dois meses do que já chegou a se passar em um ano inteiro da minha vida. Mas como a ausência dele aumentara muito meu apetite e necessidade de por a cabeça para fora para respirar, nada se comparou ao que tivemos. E isso me deixava num lugar inferior. Mesmo que as poucas e truncadas notícias que eu conseguia dele apontassem para o fato de que minha vida social não deixa nada a dever a dele – o contrário talvez fosse o mais provável –, como eu me sentia dependente de sua atenção!

Mas eis que eu o encontro. Num local, dia e situação que, confesso, me fizeram acreditar um pouco mais no acaso. Eu, o bar que normalmente freqüento e no qual ele tinha dito pouco ir, nenhum amigo meu, nenhum dele. Só nós dois e uma noite de sábado na qual as nuvens se uniam no céu, ameaçando chuva. Não adiantava sofrer com dilemas, desde o segundo em que o avistei sabia que teria de falar-lhe, olhá-lo de perto, ouvir sua voz. Não sonhava em beijá-lo, mas quem sabe me ver o tocasse, mudasse um pouco suas idéias, o amolecesse. Não sei, fui até ele. Nos cumprimentamos amigavelmente, eu até senti uma consideração especial no ar, não sei, um carinho...Mas eu sinto tantas coisas...

Convidei-o para beber comigo mesmo ele tendo recusado outras vezes. Só que desta, bem, estávamos num bar, não me pareceu inapropriado tentar mais uma vez. Ele aceitou e começamos uma garrafa de cerveja. Mas com o passar dos minutos foi parecendo que não temos muito do que tratar a não ser de “nós dois”. Mas “nós dois” não existe na realidade. Forcei umas amenidades, toquei em pensamentos meus a seu respeito com falsa naturalidade...Mas ele se limitava a responder laconicamente todas as vezes que um comentário meu exigia uma resposta sua. Foi um pouco angustiante estar com ele na minha frente, finalmente e depois de tanto desejar que isso acontecesse. Tudo poderia ter sido diferente, eu não tinha feito nada para dar com ele nas ruas, estava sendo mesmo agraciado pelo acaso. Mas mesmo assim nada. Cada palavra minha vinha filtrada pela consciência de que o que eu dissesse naquela hora poderia ser usado, por mim mesmo, contra mim depois. E, então, estava eu encurralado, sem dizer nada e com tanta coisa para falar. E como ele também não dizia muito, o encontro foi tenso e, eu diria até, constrangedor em alguns momentos.

Quando ele se foi, não diria que fiquei triste, mas sem reação. Era como se o estado disperso no qual ele me disse estar naquela noite – momento em que ele se desculpou por não estar “muito carinhoso e de corpo e alma naquela conversa” – tivesse sido transferido para mim. Qualquer pessoa com a qual eu falasse a partir daquele momento iria sentir em mim o mesmo alheamento que eu sentira nele. Certo então de que não me renderia a mais nenhuma emoção naquela noite, olhei a chuva que já caía e fui, eu também, para casa. Chorei no dia seguinte apenas. Foi a maneira que encontrei de liberar a emoção de vê-lo outra vez. É incrível a força do que ele representa para mim. Vê-lo me toca, emociona, entristece, intriga, excita – pensar nele já me desestabiliza. Mas agora serão mais dois meses, três, uma semana? E como será da próxima vez? Será que eu estarei finalmente distante o suficiente das emoções que ele me causa a ponto de não sentir necessidade de escrever sobre encontrá-lo? Ou será que eu realmente me apaixonei por ele como disse na mensagem que o enviei? Mas se eu tivesse certeza de que o amo seria prudente procurá-lo? Adiantaria de algo?



Escrito por De Luxe às 18h08
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Essa é por minha conta

 

Por onde andarão as paixões semanais? Aquelas intensas e ofuscantes, que nos fazem resumir o mundo e destacar no cenário alguém que a gente nunca viu mais gordo. Alguém que a gente idolatra sem conhecer – e que, no final sempre se descobre, não quer conhecer.

Por onde andarão aquelas paixões que passam? Dias, semanas depois. Assim que o olhar é interceptado por outro sinal, outra mensagem. Nova, fresca e de novo cheia de possibilidades de loucura, intensidade e cegueira.

Por onde andarão aquelas paixões que não deixam cicatriz? E se deixam são tão adormecidas sob o peso do tempo que mais lembram um corte da infância ou um murro muito bem revidado – aquelas que a gente lembra com orgulho e uma saudade tranqüila e estéril.

Por onde andarão aquelas paixões que só despertam para manter o músculo quente e pronto, tornando-nos atletas preparados para o salto e a corrida, a qualquer momento, potenciais como uma mola encolhida, prontos como uma bala no gatilho?

Por onde andarão aquelas paixões que ignoram o futuro, logo, o resultado? Que não se perdem em delinear o desejo, que querem por querer. São caprichosas, frívolas e ao mesmo tempo avassaladoras.

Por andarão aquelas paixões que mudavam? Muitas vezes. Sem percebermos. Fulano, beltrano e depois cicrano, aquelas que nunca caíam no mesmo lugar duas vezes.

Por onde andarão aquelas paixões de honestidade desconcertante?

 

* * *

 

Hoje é tudo sério e velho.

Hoje pesa, e arrasta o tempo que nem corrente, pensa no futuro. Hoje é injustiçado, é injusto, invade, toma, lesiona, chateia, incomoda, envergonha.

Cadê a paixão sem-vergonha?

Quem tirou o pudor da caixinha e resolveu maquiar tudo com ele como se faz com almofadinhas de pó de arroz?

Maturidade, coerência, racionalidade, prioridades. A sedução anda tão chata e perigosa quanto a própria certeza de que não devemos ir atrás de quem não nos quer.

Hoje é cheio de compromissos, códigos, ética, Natal e Ano Novo.

Cadê a paixão que não saía na fotografia? Hoje todo mundo quer procedência. Checam-se os antecedentes – e inevitavelmente acaba-se descobrindo que as pessoas têm péssimos antecedentes.

Quanto esqueleto no armário...

O tempo vai passando e a idade do mundo avança, acumulando experiências ruins, desassossegos e desastres na vida de todo mundo, especialmente dos mais jovens. Pobres. Já sofreram tanto que hoje em dia resolveram não valer mais a pena, resolveram ser espertos, rápidos, líquidos.

E quem não está cansado mais cedo ou mais tarde se cansa.

E quem está cansado assume uma aparência que faz a gente ter vontade de chorar.



Escrito por De Luxe às 17h31
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Back to life...back to reality...

 

Você justificou sua decisão com palavras emendadas, ditas de atropelo, de forma um tanto angustiada e num tom de quem queria me proteger de uma maldição: o gene da promiscuidade ativo no seu DNA. Bem, eu não nunca pretendi usar a palavra “promiscuidade”, talvez por achá-la forte demais, mas devo confessar que é no mínimo curioso que você já tenha “trocado fluídos” – Deus queira que esse seja o melhor termo – com cinco pessoas do meu círculo de amizades. E gente que eu vejo sempre, que gosta de me encontrar. Onde será que eu estava em cada uma dessas vezes? Um deles eu até considero meu irmão, aquele irmão que se a gente não teve naturalmente trata de arrumar, sabe? O outro, bom, esse não é amigo exatamente, mas gosta de me encontrar também. Até arruma jeito para isso. Vem ao meu trabalho, passa para o cafezinho. Passa mesmo. Passa para rirmos um pouco. Esse trabalhou comigo e chorou no meu ombro quando foi para outro emprego dizendo que sentiria minha falta. E mais: você é uma paixão para ele. Não a única, é verdade – certo ele –, mas é alguém que ele cultiva, se importa, não esquece, não quer esquecer e de quem me falou inúmeras vezes. Eu até já te conhecia um pouco. Você é “complicado”, “não se liga em ninguém”, “não quer – ou não consegue – namorar” etc. etc. etc., não é? Pois bem, eu ouvi tudo isso. E duas vezes. Dele e depois de você. E dele eu, sem orgulho admito, que, muitas vezes, ouvi sobre você com desinteresse e até uma certa impaciência, sequer sonhando que um dia essas informações viriam a ser importantes para mim, dando mesmo conselhos para que se libertasse de uma pessoa tão indecisa e potencialmente nociva como eu te imaginava. Estava certo?

Mas vamos falar de mim. O que você acha que passa pela minha cabeça? Você pensa que não me incomodou, de fato, sentir-me apenas mais um da banca que você “rodou” – banca essa que você “fechou bem”, como disse para mim com um sorriso jocoso, no que eu respondi: “não se preocupe, há muitas outras pessoas ainda nessa banca se você quiser...e se elas te quiserem, claro”. Você acredita mesmo que isso tudo não me desanima e preocupa? Acha que eu não percebi o quão sintomática foi a cena de você colocando e tirando as roupas no mínimo umas três vezes durante o dia em que passamos juntos, anunciando repetidamente a sua partida? Não pensa que eu não percebi que o melhor jeito de você não ir era simplesmente não insistindo que você ficasse? E que essas coisas, na verdade, eram indicativos precisos de sua depois comprovada personalidade? Sou instável, atrapalhado, inexperiente, “louco, cego e viciosamente indelicado”, como diz a canção, mas não sou burro. Tolo provavelmente, mas não burro. Por que você acha que mesmo depois de postos esses “pequenos inconvenientes” eu ainda te liguei – além da minha tolice, evidentemente? Simplesmente porque apesar de saber que você estaria longe de ser o que eu esperava e precisava, eu não me furtaria de experimentar o que poderia estar reservado de bom para mim. Mesmo que não durasse, que não fosse futuro, mesmo que eu perdesse algo valioso na troca, ainda assim não seria mais valioso do que dormir sabendo que de certas coisas não se foge. Liguei para você porque sabia que isso era a coisa a se fazer, eu não tinha escolha. Contentei-me com o fato de que o resto ficaria para depois, esperando naquele lugar que a vista da gente nunca alcança. Eu desconfiava do que seria – acho mesmo que eu sabia –, mas não ignoro encontros. Não ignoro as pessoas. Aprendi a me esforçar para olhar a paisagem durante a viagem. Afinal, quem é que nos garante que os pontos de parada não são, na verdade, melhores e mais interessantes que o lugar de destino?



Escrito por De Luxe às 19h24
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O princípio do prazer

Eu precisava fazer uma matéria sobre ilusão e realidade (sim, eu sou jornalista, não sei se já deixei isso “escapar” nas entrelinhas de algum dos textos que postei aqui). E como o assunto me pareceu, para início de fato, pouquíssimo palpável – e acreditem: o é –, optei por simplesmente trazer os conceitos de um e de outro – ilusão e realidade – sob o ponto de vista de três áreas do conhecimento: a filosofia, a psicanálise e a arte. As conversas com um professor de filosofia da USP – super fofo – um psicólogo – daqueles BEM freudianos, tinha até uma foto do homem na sala de espera – e um artista – um cenógrafo incrível – foram super produtivas. Ajudaram-me tremendamente na confecção do meu texto e, de quebra, ecoaram na minha cabeça me fazendo juntar várias peças. A minha intenção é postar as três entrevistas – ou ao menos trechos delas –, e decidi começar a “trilogia” com o psicólogo. Ele se chama Sérgio Telles, recebeu-me muitíssimo bem, foi super generoso com a minha quase total ignorância sobre o assunto e falou coisas interessantíssimas sobre a psique humana. Para mim foi útil, como disse, para muito além do que eu precisava como jornalista. Espero que ajude a todos que lerem aqui também. Olha só: usem à vontade se quiserem, só, por favor, citem a fonte – www.foradogancho.zip.net , o blog desse que vos escreve: De Luxe. Peace!

 

Qual definição a psicanálise dá para a ilusão?

Freud estabelece que na medida em que nosso psiquismo vai se organizando, a gente passa do chamado princípio do prazer para o princípio da realidade. Isso significa que quando somos crianças o nosso psiquismo está inteiramente voltado para a realização do nosso desejo. Ou seja, uma criança se sente onipotente, toda poderosa, e ela acredita que o mundo existe para realizar os desejos dela. Ocorre, no entanto, que todos nós morremos sem conseguir atingir o outro princípio, o da realidade, ou seja, aquele no qual nosso psiquismo vai entrando em contato com os impedimentos que a realidade traz. Em outras palavras, é começar a perceber que o mundo não existe para nos satisfazer. Ao contrário, ele está aí, na maioria das vezes, para quebrar nossos sonhos

 

Mas por que mesmo quando adultos não conseguimos “entender” isso?

Simplesmente orque os nossos desejos continuam. Nós apenas deixamos a postura do narcisismo infantil de achar que nós vamos realizar todos eles imediatamente e começamos, ao menos a maioria, a batalhar para realizá-los. E essa batalha implica justamente no reconhecimento da realidade, da coisa concreta, ou seja, eu não sou onipotente, não mando, não pinto e não bordo.

 

E onde entra a ilusão nisso tudo?

A ilusão é aquilo que não é real. Só que todos nós substituímos a realidade, o mundo real, pela ilusão vez em quando. O quanto e como fazemos essa substituição vai depender da maturidade, da boa constituição psíquica, que o indivíduo tenha. Por exemplo: os psicóticos – os chamados loucos – alucinam, deliram, ou seja, negam a realidade, que é não insuportável para eles. São pessoas presas naquele momento inicial do psiquismo no qual nós achamos que mandamos e desmandamos, que o mundo vai se submeter inteiramente a nós. 

 



Escrito por De Luxe às 15h50
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O princípio do prazer (continuação)

 

Mas e os que não são psicóticos, as pessoas normais?

Para Freud, e para a psicanálise, nós somos todos neuróticos, verdade. O melhor que a gente pode ser é neurótico [risos]. Ou seja, a figura do normal é uma ficção. Dessa forma, nós, os neuróticos, não negamos inteiramente a realidade, mas mesmo assim substituímos fragmentos insuportáveis da realidade por ilusões. Para a psicanálise, toda a ilusão é usada pelas pessoas para tornar a realidade mais palatável. Então, se eu tenho o problema x, y, enfim, qualquer que seja, eu passo a “não ver” determinadas coisas que eu não gosto, faço de conta que não é assim. Se alguém me diz algo que eu não gosto, ou não aceito, eu “entendo” de outra maneira.

 

As pessoas são iludidas ou se deixam iludir?

Iludem-se de modo próprio. Agora, é verdade, a sociedade tem todo o intuito de iludir as pessoas. Por exemplo, os grandes meios de comunicação de massa – a propaganda, a publicidade e o consumo – são máquinas de criar ilusões. O consumo principalmente é uma máquina que lucra com a ilusão. É a história do “compre a sandália X que você vai ser lindo e maravilhoso”. A propaganda e a publicidade reconhecem muito esse mecanismo inconsciente, dos princípios de realidade e do prazer, e faturam encima disso. Ou seja, as pessoas se iludem sozinhas, mas as máquinas de poder da contribuem muito para isso, e em função, claro, do seu próprio interesse.

 

E dentro disso podemos colocar a televisão?

Não diria dessa forma. Fala-se muito, por exemplo, da violência na televisão, nos filmes, nos jogos de computador etc. Agora, o jogo tem uma dimensão um pouco diferente dos espetáculos. Em todos os casos, a pessoa pode descarregar um pouco a sua violência e agressão, mas não creio que isso seja de uma importância maior. Ficar falando da violência na televisão é uma bobagem, é muito mais importante falar da violência das relações familiares, da loucura familiar, do abandono das crianças, do mal trato das crianças. Essas, sim, são as mães da violência.

 



Escrito por De Luxe às 15h49
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O policialzinho do Crossing Jordam (esse aqui da foto...)*

Sonhos eróticos são para mim, e no meu caso, positivos. Indícios de que minha sexualidade sempre latente prepara-se para um bote qualquer. Qualquer um, qualquer bote. Lembro-me que antes de conhecer e saborear um tal que conheci certa vez, sonhei que devorava aquele ator Bruce Willis com ele algo que empoleirado numa gôndola de chocolates em um supermercado. Super, não. Hiper. Era um desses mercadões grandes que dão conta da voracidade consumista de qualquer bom cristão dos dias de hoje. Aqueles também bem claros, com chão liso por onde circulam aqueles atendentes sobre patins todas esbaforidas. Pois bem. Era no Extra, se não me engano. Certamente era. Nunca fui ao Carrefour. Sei que Bruce Willis apareceu para mim no tal sonho tão carente. Queria somente a mim. Bom, como os sonhos devem ser. Dias depois fartei-me com um careca menos famoso, mas bastante satisfatório.

E eis que noite passada sonhei com o policialzinho do Crossing Jordan. Ai de mim. Crossing Jordan é um desses seriados de “quem é o assassino?” que os americanos produzem às pencas. Pouco importa. O que importa é o policialzinho. Tão bravinho, tão inábil para controlar a própria testosterona. E, mesmo assim, com as bochechinhas róseas daquelas que as pessoas colocam nos anjos de folhinha. Não é perversamente delicioso?

E não é que noite passada, como eu ia dizendo, o tal anjo armado estava só de cueca e camiseta dormindo do meu lado na cama? Todo bravo, pedindo para que eu não encostasse nele. “Só eu posso encostar em você”, ele mandava. Desnecessário dizer que depois de muito lero lero e beijinho estalado (daqueles sem língua), nossos coletes à prova de bala foram parar do outro lado do quarto imaginário...

E se a lógica traçada entre meus sonhos eróticos e a realidade absolutamente maluca na qual eu vivo se confirmar mais essa vez – só mais essa vez, eu peço –, pode ser que eu encontro um anjo qualquer com cara de mau. Daí eu vou cantar. Cantar: vem cá que você não é de nada, e essa sua cara amarrada é só um jeito de viver nesse mundo de mágoa...

 

Sonhando,

De Luxe

 

*Uuui, isso é tão Capricho da minha parte...

 



Escrito por De Luxe às 19h36
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A carta seria esta

 

Por meio da palavra escrita – que eu não domino, mas sou mais habituado –  talvez eu consiga finalmente me explicar. Uma vez que pessoalmente, devo confessar, eu fui um desastre todas as vezes que eu tentei – ao menos com você. É incrível como minha verve me abandonava quando eu estava com você, mas essa é outra história, enfim...

Embora eu não me lembre de quase nada do que eu disse naquela quinta-feira no Gourmet, sei que o conteúdo da conversa foi o mais nefasto que poderia ser, pelo menos para mim. Sei que as coisas que eu disse devem ter sido, no mínimo, desagradáveis. Mas saiba que foram palavras absolutamente desencontradas, mas não exatamente equivocadas. De certa forma, há um tempo eu queria passar a você aquela mensagem. Fazer você saber da minha mágoa – ainda que ela não faça sentido para você –, do meu ciúme – ainda que ele não faça sentido para mim – e da tristeza que eu sentia todas as vezes em que a gente se encontrava e mal se cumprimentava. Eu sempre achei que o desfecho de uma história que oscilava entre a intimidade da cama e a falta de diálogo não tinha muitas chances de ser positivo Talvez o que eu não soubesse é que seria eu quem “piscaria primeiro”, quem deixaria – ou faria – a casa cair, como dizem. Mas, enfim, foi assim. E eu não posso fazer o tempo voltar.

Não sou bom em dissimular sentimentos, não tenho talento para dar troco na mesma moeda e sou incrivelmente inábil para agir naturalmente se o que eu sinto me desestabiliza. E como o máximo que o ser humano conseguiu atingir em sofisticação de formas de defesa foi o ataque, eu não fugi à regra. Joguei-me na vala comum da árdua condição do ser humano e fui o mais humano possível – com isso significando descontrole, desespero e egoísmo.

Conheci muitas pessoas que me disseram não acreditar nas desculpas – houve até os que ilustraram seu ponto vista soltando a máxima de que “depois que inventaram a desculpa, os safados nunca mais apanharam na cara”. Não sei se concordo com isso. Já pedi muitas desculpas, e já desculpei outras vezes também, sempre tentando ter em mente que a vida é maior que todos nós e por isso é perda de tempo guardar rancores. Às vezes é difícil, eu sei. Mas espero que você não me tenha em baixa conta depois do que aconteceu. Possivelmente você não deve estar muito preocupado com isso. E eu posso entender. Assim como é mais simples o papel de quem presencia um surto, é mais confortável ser a pessoa que “tem a razão”.

Enfim, divagações à parte, me lembro ter dito que te odiava – o que na hora era verdade e às vezes ainda é. Mas igualmente reconheço que sua participação em mais esse sentimento meu é mínima, para não dizer nenhuma. Lembro também que pedi que você nunca mais “olhasse na minha cara” e acho que isso não será difícil para você e por vários motivos. Além de cuidar para que não nos encontremos mais no bar – as quintas, não é? –, a julgar pelo semblante calmo e inabalável que você sempre ostenta, não dirigir a palavra a mim não será tarefa complicada para você. É engraçado como uma das coisas que está mais viva na minha memória é quando você disse que “não se importaria” se me visse com outra pessoa. Você tem sorte, meu caro. Importar-se com isso é doloroso e inútil. Agindo assim, você não se desgasta e economiza tempo. Há pessoas que chamam isso de maturidade. Eu não sei ao certo...Mas um dia, quem sabe, eu chego lá.

 

Abraço.



Escrito por De Luxe às 15h58
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Olha a última...

 

Eu já o tinha visto algumas vezes – hoje tento me lembrar quantas, só para ter mais alguma coisa no que pensar –, mas nunca tinha me passado pela cabeça falar com ele. Por algum motivo desses da vida (que eu acabo descobrindo qualquer dia nem que seja só para acabar com a graça do acaso), nossos caminhos pareciam não estar destinados a se cruzar. Acontece que estavam. Certo dia, dentro daquele recinto tão pequeno, mas que pode ser cenário para relacionamentos marcados pelas maiores distâncias, viemos ambos parar na mesma quinta-feira sem graça, lado a lado no balcão. Ele estava sozinho e eu, além disso, sentia-me à vontade comigo mesmo, achando que poderia fazer qualquer coisa – até adentrar o improvável, brincar um pouco com o destino e conversar com aquele coroa modelo “enxutão” cujo caminho jamais cruzaria o meu. O que teria eu a perder? No final da noite eu teria um tipo a mais no meu currículo – que, garanto, é vasto deles.

No entanto,por mais que eu queira às vezes não tenho inclinação para a gratuidade – característica da qual me orgulho e não alternadamente. E o que era para ser um passatempo acabou se transformando numa conversa surpreendentemente cativante. Um bate papo dos bons no qual, por vezes, o jogo cedia espaço para a sinceridade, e aquela condescendência besta típica do flerte simplesmente não ousava aparecer, e no lugar dela surgiam embates excitantes entre pontos de vistas bastante vigorosos. Foi o que se pode chamar de Acontece que terminou na cama. Não sei se isso deveria ou não ter acontecido. Hoje tenho sérias dúvidas. Mas, enfim, sempre nos fazemos perguntas que começam com "será" toda vez que algo não sai como previsto ou desejado. Conjecturas. Ensaios inúteis de posturas que já não interessam mais.

E eu, que sinceramente achava que o constrangedor dia seguinte não nos incomodaria a ponto de nos envergonhar irreversivelmente, fui pouco a pouco me deparando com o contrário.  Encontramo-nos outras vezes e tudo parecia natural e sem marcas. A gentileza e a cordialidade – quero crer espontâneas e sinceras – marcavam primordialmente nossos cumprimentos tímidos. E se pouco falávamos um com o outro em muitas das vezes, eu tinha certeza que era porque não sabíamos muito o que dizer. E no fundo dos pensamentos, eu guardava aquela tola esperança de eu poderia ser a pessoa a dar o primeiro passo para mudar essa condição, se eu quisesse. E como devo confessar, eu não sabia muito bem se queria, valia a máxima: o que não tem remédio...

Assim as coisas seguiram até que saímos de novo uma segunda vez, depois uma terceira, quarta, acho que uma quinta se não me engano. E cada vez mais eu desfrutava da estranha e suave sensação de não estar apaixonado – nem por isso enojado. Paixão e repúdio sempre foram os únicos lugares nos quais eu me abrigava das pessoas com quem me relacionava. E, de fato, eu não sabia do imenso e arejado quintal que separa os dois. Mesmo sem sentir necessidade de vê-lo, tê-lo ou toca-lo, quando isso acontecia era como se eu tivesse saciado um enorme desejo. Ele me dava assunto, memória e experiência. Estar com ele era como um laboratório. Melhor, era como um campo de testes. Eu podia colocar em prática, ou ao menos simular com um alto grau de realismo, como é ser um amante, um namorado, parceiro ou seja lá que nome se dá a isso. 

Claro que a participação dele foi fundamental. Tudo isso que eu descrevo e confesso só é possível a dois. E ele era, admito, um parceiro interessante. Não se trata de nada que ele especificamente fazia – por vezes ele era bem óbvio e frustrante na verdade –, mas a presença dele era acolhedora, simpática e engraçada. E o peito dele era macio e bom de recostar a cabeça e dormir.

Muito pouco provavelmente namoraríamos ou sequer teríamos um caso mais longo. Mas eu estava começando a cogitar a possibilidade dele ser uma espécie de sex friend. Às vezes sex, às vezes friend...Quem sabe até somente friend – mas dos bons, daqueles que te conhece, conhece seu corpo e as expressões que você faz quando goza. Aquele tipo que se preocupa com quem você anda saindo porque sabe também do que você não gosta...

Em resumo, achei que meus 31 anos, e mais os 47 dele, pudessem ter feito mais por nós. Mas as coisas não seguiram esse rumo. O que é uma pena.



Escrito por De Luxe às 14h35
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Finalmente eu consigo escrever de novo. É claro que não parece que vai ser fácil. Escrever é como andar, se a gente fica muito tempo parado é difícil dar o próximo passo, parece que atrofia. Mas, por outro lado, quando a gente recomeça dá pra sentir uma “sensaçãozinha” de prazer, um prazer que tem a ver com esperança. Afinal, imagine quantos passos ainda não estão por vir depois que a gente “tira o gesso”? Então vamos lá. Deixa ver se eu tiro logo o meu.

 

Dia desses um (super querido) amigo me ligou – fazia tempo que a gente não se falava – e me disse que a última vez que esteve aqui no Fora Do Gancho percebeu que eu estava “às voltas com a paixão”. Eu rebati dizendo que fazia taaaanto tempo que eu não escrevia, leia-se, não devia ser mais com isso que eu estava “às voltas”. Mas já na hora eu consegui concluir – com ele do outro lado da linha – que, na verdade, eu estou SEMPRE às voltas com a paixão. De alguma forma, seja por gente, filme, coisas – “aromas, luz, metal”, diz o Neruda num poema dele. É como se eu fosse uma espécie de teórico do amor. Já pensei, li e escrevi sobre os mais diversos tipos de amor, e já fiz na minha cabeça as mais diferentes combinações: amor com sexo, amor com admiração, amor com sofrimento, amor com dor (tão cafona quanto inevitável), amor com comida, amor com música, enfim, por aí vai.

Prática, PRÁTICA, mesmo com amor eu não tenho muita. Tenho bem pouca para ser sincero. Quase nunca tinha gente do outro lado da linha quando eu me apaixonava – Platão explica. E aí, quando eu pensei e falei isso com meu amigo, me deu um cansaço. Um cansaço grande e sem rodinhas...sem alça, um cansaço de papelão...na chuva.

A paixão e o amor são coisas legais, essenciais e inevitáveis, mas fazem a gente perder um tempo que nem sempre a gente tem. Aí rola o prejuízo. Digo isso porque às vezes o desgaste é tão grande que não sobra ânimo nem para escrever sobre isso no blog da gente, sabe? Olha para isso aqui, faz um puta tempo que eu não escrevo. Eu não leio também há um tempão. Não vou ao cinema, demorei meses para levar a TV do meu quarto para o conserto, não sobrou um tempinho para cortar o cabelo. Estou me sentindo uma múmia no meu trabalho, precisando dar uma reciclada no ar, nas funções, nas minhas capacidades, no meu chefe, e só consigo falar de amor e paixão na terapia. É um grande e teórico fardo que eu carrego e que prende toda a minha atenção. E vejam que não foi ninguém que me deu esse trabalho todo, é só mesmo preocupação com a idéia do amor, a idéia da paixão. Um eterno “como seria?”. Não estou aqui tentando camuflar um conselho do tipo “não percam tempo com o amor e a paixão” – mesmo porque se conselho já é algo que quase nunca vale de nada, esse valeria menos ainda. Mas é uma constatação desagradável de que no que diz respeito a essas coisas do coração não vale muito a pena pensar sobre elas. Ou você faz – vai, escolhe alguma vítima, cair de quatro por ela, azucrina, liga sem parar, tenta seduz, arrasta pra cama, segue nas ruas, enfim, concretiza o negócio nem que seja à força –  ou então, meu amigo, vai levar logo sua TV do quarto para o conserto. E, como já disse, eu me peguei entre as duas coisas, perdendo meu tempo.



Escrito por De Luxe às 10h25
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Na falta do que dizer, deixo que ele diga por mim...
Why is age more than a number when it comes 2 love?
 Should we ask the ones who speculate
When they dont know what its made of?
 Should we ask the moonlight on your face
Or the raindrops in your hair
Or should we ask the man who wrote it there in the morning

papers?

Prince em The morning papers

 



Escrito por De Luxe às 15h42
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Agora eu entendi aquela história de “até que a morte os separe”...

Tipo, um olha pro outro e diz:

- Eu? Morrer por você? Nem fodendo!!!!

Viu? Até que a morte os separe...

Escrito por De Luxe às 14h15
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Se hoje eu fosse uma música do Prince, eu seria essa...

 

Tangerine

 

Some days I feeL tangerine
Some days I feeL blue
Some days I just wanna black out everything I feLt 4 U
Even though I take your picture everywhere I go
I use it 4 a coaster and drink the overflow

Some days I make a Lot of money and give it all away
2 take my mind off the tangerine color of your negligeé
Beggars can't B choosy if they don't know how 2 serve
U got a different phone number and a lot of nerve

Some days I feel tangerine
Some days I miss U 2...



Escrito por De Luxe às 08h39
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Act your age, mamma...

 

O chavão é que a idade é só um número. Mas, às vezes, a idade é bem mais que isso. Perambulando pela internet – numa atual fase de tédio profundo e falta absurda de vontade de trabalhar – deparei-me com uma imagem que muito me trouxe satisfação e nostalgia. É essa aí de cima. Prince e Wendy juntos, numa perfomance em um programa de televisão em fevereiro deste ano. Para quem não sabe, Wendy foi guitarrista da Revolution, aquela banda que o acompanhava quando ele mandava no mundo – leia-se Purple Rain, When Doves Cry, Kiss... A satisfação venho do fato de os dois estarem às voltas um com o outro de novo, e a nostalgia, por outro lado, soltou da tela do computador direto para cima de mim quando os vi na foto mais velhos, mais sóbrios, mais compenetrados, vestidos de preto e – por incrível que pareça em se tratando de Prince – absolutamente discretos. A legenda da foto dizia que eles tocavam Reflection, uma balada do novo disco dele, Musicology, e que, igualmente, é mais sóbria, compenetrada e discreta. Impossível foi não pensar nos mesmos Prince e Wendy há 18 anos em cena do vídeo de Kiss. Ele, novinho, de mini-blusa e calça saint tropez, gritando como um louco, pulando como um louco, mandando beijinhos no refrão. E ela, talvez ainda mais jovem, toda de vermelho, brincos gigantescos, dominando uma guitarra aos risos, fingindo satirizar os movimentos exagerados do colega que a provocava o tempo todo.

O tempo muda tudo mesmo...

 

De Luxe

P.S. Quanto a mim, cada vez menos Kiss e mais Reflection. O tempo muda tudo...MESMO.

Escrito por De Luxe às 16h44
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This used to be my playground

 

Hoje quando eu pus o pé para fora de casa, a segunda-feira ficou feia. E no caminho até o trabalho me pus a pensar se eu era mais feliz antes. Mas antes quando? Quando eu nasci? Não me lembro... Ou melhor, de algumas coisas eu lembro sim. Tenho memória boa. Lembro de coisas da minha mais tenra infância. Como quando minha mãe me deu um trenzinho que tocava música. Não era dia das crianças nem Natal. Mas minha mãe tinha dessas: me dar presentes fora de época. Pois então, o tal trenzinho veio num embrulho marrom com bolinhas brancas. Nunca caixa grande, quadrada e muito atraente para uma criança. Hoje em dia não se usa mais embrulhar as coisas em papel de presente. Agora são sacolas de papel, ou aqueles papeizinhos finos e um tanto sem graça. Os presentes não ficam mais tão bonitos. Será que eu era mais feliz quando se usava papel de presente?

Ou será que era quando meus problemas se resumiam a ter prova de matemática no dia seguinte? O tempo passou, eu não aprendi matemática e sigo a vida... Tudo bem, tenho lá meus problemas com os números. Mas provas de matemática não me mataram. Então por que será que, hoje, eu insisto em pensar que os meus problemas são maiores do que eu? Será que eu era mais feliz quando não sabia que os problemas eram menores e mesmo assim conseguia passar por cima de todos? Afinal, hoje eu tenho a certeza – endossada pela analista – de que os problemas estão todos na minha cabeça, mas não consigo fazer nada quanto a eles. Será que eu era mais feliz quando os problemas estavam na prova de matemática?

Eu me magoava muito facilmente quando era pequeno. Magoava-me com meus primos, com meu tio, com minha mãe, com meus colegas de escola. Aquela escritora infantil, a Tatiana Belinky, disse numa entrevista que era uma menina estranha. Não chorava nem mentia. Eu não mentia, mas chorava como se todo dia fosse dia de enterro. Minha mãe até dizia que quando ela morresse, eu não teria lágrimas pra chorar por ela. Será que eu era mais feliz quando tinha mais lágrimas? Ou, quem sabe, quando me magoava mais? Hoje sinto uma necessidade boba de me magoar menos como se isso fosse ser uma pessoa “mais forte”. Bobagem. Queria me magoar mais, fazer bico e chorar, chorar muito. Mas a idade adulta é a idade do “sem ressentimentos”. Por que será que todos dizem “sem ressentimentos”? Ressentir-me com alguém tem significado arrumar dois problemas: o acontecido e o que não deveria acontecer. Afinal, o que o adulto faz nessas horas? Finge que nada aconteceu. A não ser quando é grave, claro. Mas quando é grave? Se a gente não sabe mais, quem é que vai nos dizer? Será que eu era mais feliz quando eu próprio decidia o que era grave? E fazia bico e chorava... Mas a idade adulta é a idade da “cabeça erguida”. Por que será que temos tanto de andar com a cabeça erguida? Para não ver os problemas menores que nós? Ou será para conseguir prestar bastante atenção nos maiores?

Hoje acordei sentindo muita saudade: do meu trenzinho que tocava música, do papel marrom com bolinhas brancas que o embrulhava, de papéis de presente, de me magoar, de fazer bico e de chorar.



Escrito por De Luxe às 18h47
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