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Homens e mulheres: ainda dá em casamento
Dia desses voltando a pé da casa de uma amiga fiquei pensando sobre uma velha questão que não tem nada a ver diretamente comigo, mas com a qual é impossível eu não me importar, simplesmente por viver neste mundo: por que as mulheres e os homens são tão diferentes? O legal de escrever sobre qualquer assunto em um blog é que você pode dizer o que quiser baseado única e exclusivamente nas suas impressões, e nas experiências que você acompanha de perto ou não. E elas, impressões e experiências, não me faltam.
Cronologicamente, comecei pensando nos meninos e nas meninas. Durante uma certa idade, dos seis até os nove anos mais ou menos, um não suporta o outro. Por isso, de um lado ficam os garotos – sujos, esculhambados e invariavelmente machucados – e de outro as garotas – frescas, limpinhas e afogadas em bichinhos de pelúcia. Pensei no Calvin, aquele personagem das tiras de jornal. Típico menininho que, tipicamente, ODEIA as meninas, mais especificamente a Suzy, uma garotinha toda metidinha a adulta que tira ótimas notas na escola. Suzy não compartilha do gosto de Calvin por nenhum tipo de meleca – sintética ou orgânica – que possa existir ou ser inventada, e sofre na hora do recreio com a coleção de nojeiras que podem sair da boca do coleguinha. Ela finge odiar Calvin, mas não perde a oportunidade de procurar ouvir dele alguma palavra doce, alguma gentileza. Por usa vez, ele prefere ser cozido vivo a dizer algo do tipo para ela. Ou seja, Calvin só quer ser livre – bem à sua maneira – para fazer o que quiser, e Suzy já quer romance. Foi inevitável concluir que, na verdade, as coisas continuam assim entre os gêneros por toda a vida. Tais diferenças dão o tom picante à adolescência, infernizam a idade adulta e provocam uma condescendente irritação na velhice.
Vejam: com 15 ou 16 anos, os meninos não perdem mais tempo nas brincadeiras de super-herói, o que não significa que eles ainda não se sintam um, o que muda são os super-poderes. Sai a imaginação, entra a testosterona. Em vez de desenhar carros velozes, os jovenzinhos os querem reais, e enlouquecem os pais até conseguir (provavelmente muitos deles já terão aprendido a dirigir com essa idade, como todo heterozinho que se preze). Os pais não precisam mais se preocupar com aquela insistência do menino em querer sair voando pela janela, mas têm de agüentar as intermináveis horas no banheiro gastas com aquelas generosas senhoras das revistas para adultos. Os planos mirabolantes para enganar a mãe ou a professora são substituídos por planos não menos fantasiosos, meticulosamente planejados para enganar a mãe e as namoradas. Já elas, as Suzys, evidentemente terão desistido dos bichinhos de pelúcia e colecionarão galãs de TV, irão continuar sentindo-se muito adultas – e se orgulhando disso – e vão consolidar seu rosto pelo romance.
Quando adultos, homens e mulheres, mais autônomos, continuam cultivando as diferenças das quais tanto reclamam. Eles já se interessam por elas, mas elas estão longe de ser a companhia ideal para eles – a mulher que nunca perdeu seu homem para uma “pelada com os amigos” que atire a primeira calcinha. Elas, que sempre quiseram deles não muito mais que romance, ganham mais subterfúgios para conseguir, mas continuam fingindo que, às vezes, os odeiam. Fingir. Essa é a palavra, tão relacionada à mulher – e, de novo, a que nunca sentiu, ainda que secretamente e negando até a morte, satisfação em ter um sujeito machão e protetor ao lado que atire o primeiro corretor de olheiras da Helena Rubinstein.
Na velhice, vovôs e vovós são muito fofos, mas guardam as diferenças de casal com tanto carinho e dedicação quanto mantêm na parede a foto de formatura do filho médico. Eles, gagás, esquecem-se de vestir a cueca, não gostam de cortar as unhas e fogem do banho. Elas, loucas, são capazes de matar alguém que perca um dos talheres de seus faqueiros, resmungam e choram quando não recebem devida atenção do marido ou dos filhos e se lembram – quando assistem à novela – daquela antiga inclinação pelo romance.
Por mais que entre as gravatas ouça-se em uníssono que “as mulheres são difíceis” e que entre os saltos altos a queixa, também unânime, seja “eu não entendo esses homens”, o fato é que pouco se faz para que as coisas mudem. E sabem por que? Porque não precisa. Elas os querem assim, e de nenhuma outra forma, e eles acham que o fascinante em tê-las como objeto de desejo é justamente essa confortável inabilidade em ligar com elas. Homens: ruim com eles, pior sem eles? Mulher dá trabalho, mas é bom? Na verdade é mais ou menos assim: a mulher já é mulher desde criança e o menino é menino para o resto da vida – com tudo de bom e de ruim que isso tenha.
E não me amolem mais com esse assunto.
Thank U...
Escrito por De Luxe às 19h56
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