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Eu acho que vi um casal hétero...
Tem gente que abusa do direito de fazer parte da sociedade. Nunca achei que fosse reclamar de excesso de cidadania, mas, francamente, alguns casais hétero simplesmente exageram quando se trata de exercer o direito de ter direitos. Tudo bem, tudo bem: deve ser BEM legal poder beijar em público sem precisar de lei que nos defenda, não ir parar no SPTV cada vez que decidimos fazer um carinho no parceiro na fila do cinema, poder casar e blábláblá. Mas, Deus do céu, question: eles – os casais hétero – precisam ser TÃO chatos? Quando são velhinhos é até fofo. Quando são tipo “casados faz tempo” é engraçado, agora quando são namorados... Santíssima Trindade como eles são pentelhos! Domingo passado eu fui ao cinema, sozinho. Meu amigo tinha um date, minhas amigas resolveram ter um momento Sex And The City (leia-se compras/falar mal de homem) então eu dei aquela, digamos, sobrada. Tudo bem, sem ressentimentos. Afinal, eu até gosto de ir ao cinema sozinho. Prefiro na verdade. Detesto desperdiçar amigo indo ao cinema e tendo de ficar com gente querida sem poder falar por duas horas. E, no caso, eu, gay, trinta e UM anos e sem namorado...”rabo entre as pernas e encara um cineminha domingão sozinho mesmo que é o melhor que você faz”. Pois bem, estou eu lá no CineSesc para assistir O Pântano (assistam, vale a pena) e achando tudo meio mais ou menos, até que, de longe, eu avisto: um casal hétero. Ele, de óculos, cara de fuinha. Ela, cabelinho curto, cachecol, cara de fresquinha. Quando eles passaram por mim, eu já pensei: fique esperto, monitore-os, saiba onde eles vão se sentar e sente BEEEEEM longe deles. Não há nada que eu odeie mais do que ficar ouvindo aquele barulhinho estalado de “beijo a meia língua” que eles insistem em trocar ad nauseum assim que começa o filme. Baixou o ninja em mim e eu fique Kill Bill, à espreita, só sacando a dupla. A bizarrice começou logo ali naquela salinha onde tem o café e a gente fica esperando para entrar. Todo mundo conversando, olhando aquelas fotos maravilhosas de filmes brasileiros antigos que tem lá (ainda acabo roubando uma) e eles, sentados, se beijando MOOOOITO. Sejamos francos: demonstração de carinho em público é ok, mas beijos ardentes sob luz fria...PELOAMORDEDEUS! Passei e fiz cara de nojo. Minutos depois, eu resolvi fazer o que nunca faço se estou no cinema com amigos: pegar aquela filinha ridícula que invariavelmente se forma assim que a sala está para abrir (acho que o gosto por uma fila já pode ser incluído na categoria “faz parte da cultura do brasileiro”). Na minha frente, adivinhem quem? O casal hétero. Ela foi ao banheiro e ele ficou lá, esperando por ela com cara de “não demora, heim, beim”. Argh! Quando a sala abriu, a fila começou a andar e ele nada, não saiu do lugar enquanto a sua cara metade não voltou do lady’s room. Eu já estava preparando uma cara bem entojada para perguntar algo do tipo “e aí, vamos desentupir esse andamento”, até que ela chegou e ambos puderam caminhar novamente, uma vez juntos de novo.
Eu sei que a essa altura muitas das pessoas que estão lendo isso (se é que “muitas pessoas” vão ler isso) estão pensando: “bicha invejosa, preconceituosa e carente”. Quer saber? Sou mesmo, mas além disso tenho, graças a Deus, sensibilidade suficiente para perceber que, na maioria dos casos, esse nheim-nheim-nheim todo não tem nada a ver com amor ou algo do gênero. Trata-se apenas de dois seres humanos héteros, mortos de orgulho por fazerem parte da ala normal da sociedade e escolhendo os instrumentos errados para mostrar um para o outro que se amam. Eu prefiro mil vezes que o meu pretê entre sem mim na sala de cinema e fique me esperando com um sorriso ENORME lá dentro todo prosa porque conseguiu os melhores lugares do mundo pra nós do que um sujeito com cara de fuinha que atravanque uma fila inteira só porque acha que me esperar voltar do banheiro é o que “se deve fazer nessas horas”. O que ele pensou que ela fosse? Inválida? Argh...
Escrito por De Luxe às 09h45
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