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Qual a utilidade?

Tem uma música da Björk chamada It’s Oh So Quiet que deveria ser traduzida para todas as línguas do mundo e ensinada na escola. Ela fala do quanto a casa cai quando a gente se apaixona, e de como – muitas vezes – parece que nada aconteceu depois que a paixão acaba. De fato, se a gente se apaixona por alguém que está cagando e andando pela gente a história é assim mesmo: você conhece a pessoa, acha ela interessante, se pega pensando nela numa bela terça-feira depois do almoço, conclui que não pode viver sem ela, vive o drama de contar ou não, sente ciúme, briga com ela, não quer vê-la nem pintada de ouro na sua frente, reata, jura que será a única que você vai amar para o resto da vida, se decepciona depois de um tempo, termina com ela e depois esquece. Tudo sozinho. E a pessoa ali, firme na filosofia da vaca: cagar e andar, para tudo isso e para você. No final, a Björk, já aos berros, se pergunta: “qual a utilidade de se apaixonar?”. É claro que parece uma pergunta descabida, que todo mundo sabe o quanto é gostoso se apaixonar (será?) etc. etc. etc. Mas analisando desse ponto de vista, digamos, islandês, veja que curioso: “está tudo tão quieto/tudo tão calmo/você está sozinho e na paz até que.../você se apaixona/zing bum/o céu desaba/zing bum/você nunca se sentiu tão louca por um cara/você quer sorrir, quer chorar/faz o sinal da cruz e deseja morrer.../até que acaba”. Depois, de novo: “está tudo tão calmo/você está sozinho e na paz até...” Escataplaf tuuuuuudo outra vez, só muda o nome, o endereço da razão da sua existência e o perfil – mentira, quase sempre nos apaixonamos pelo mesmo perfil de pessoa. Assim sendo, insisto: Qual a utilidade disso tudo? É quase como assistir a um filme que a gente já sabe o final – às vezes, dá uma mudadinha, mas nada que fuja muito dos padrões, confessem vá...
E nessa vou eu, agora quase entrando no período de paz que vem depois que a casa cai, e sozinho. O Notlim (lembram dele????) parece um sonho distante que eu nem sei porque raios fui sonhar um dia. Ontem à noite, pensei – só um pouquinho – em como seria minha vida com ele. Foi legal o pensamento...Mas todos os diálogos eram escritos por mim, porque todas as vezes que ele falou por conta própria só me fez repensar e repensar sobre qual era a utilidade de me apaixonar por ele. Ai, ai...Cansei de querer saber qual era a utilidade de me apaixonar por ele. Vou esperar pelo próximo. E sobre o Notlim? “Desde que rompemos, voltei usar batom/e chupo minha própria língua em sua memória”. Essa é outra da Björk, do mesmo disco...Aliás, um belo disco.
Boring, De Luxe
Escrito por De Luxe às 19h27
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Música, coca light e uma certa melancolia - Parte 1
Ocasiões que marcam a passagem do tempo são sempre oportunidades interessantes para exercitar a observação. Sábado passado tive uma dessas chances. Fui a uma festa cuja última edição havia se dado exatamente há um ano. Todas as pessoas que estavam então estariam agora. Inclusive eu. Eu e um certo indivíduo que tinha, na edição passada da tal festa, me proporcionado um final de noite um tanto desagradável. A história seguramente não vem ao caso agora, basicamente é suficiente dizer que entre nós uma sucessão de mal entendidos resultou numa conversa impaciente, mentirosa e rude.
Um ano se passou desde aquilo e eu nunca mais tinha visto o tal sujeito – a única notícia que tive dele foi saber que ele tinha, digamos, estendido para terceiros suas impressões impacientes, mentirosas e rudes a meu respeito. Encontrá-lo, sendo assim, passou a fazer parte dos acontecimentos que eu desejava, mas temia, sabendo que “um dia” – como se diz – isso iria acontecer. E o dia foi sábado, na festa que marcaria “um ano depois”, caso minha vida fosse um filme. Ele chegou tarde, o suficiente para eu esquecer que poderia vê-lo naquele dia. Ele não veio falar comigo, eu não fui falar com ele. O que, às vezes, termina por mostrar-se a melhor das hipóteses.
No entanto, mesmo quando o destino não determina os fatos, encarrega-se de faze-los acontecerem sob seus auspícios. Se aparentemente nós não queríamos falar um com o outro, nenhum de nós dois pôde, por outro lado, impedir um “encontrão” na porta. Mas nossos olhares caíram e não nos falamos.
Voltei à pista vazia. Sentia-me satisfeito de certa forma, conformado com o estado das coisas – afinal, o que mais poderia ter acontecido, ou sido dito, além de nada? Nada é igual é nada, como diz uma canção. Mas não demorou até que eu sentisse um toque no meu braço enquanto dançava de olhos fechados. Era ele:
Escrito por De Luxe às 18h59
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Música, coca light e uma certa melancolia - Parte 2
- “Sabe qual o significado do aperto de mãos para os romanos?”,
disse bem perto do meu ouvido.
- “Não”, confessei.
- “Mostrar um para o outro que as mãos estão vazias, sem armas”.
Sorri. Não sei se isso é verdade – até brinquei com minha amiga que antes de tentar impressionar alguém com essa informação de almanaque convém checar a veracidade da informação. Mas, independentemente disso, achei propício o comentário. De fato, eu não estava armado – faz tempo que não ando sendo barrado nos detectores de metal por aí –, mas confesso que pensei, ou esperei, que sentiria algo negativo quando o visse – raiva, desprezo, repulsa... Mas não. Eu não senti nada.
Ele esticou, então, a mão amiga e olhou bem dentro dos meus olhos – ou ao menos é assim que eu me lembro...
- “Okay, façamos como os romanos. Sem armas”, respondi
aceitando seu aperto de mãos e evitando um pouco olhar para ele.
- “Desculpe não ter te cumprimentado antes, mas não te reconheci.
Sou péssimo com fisionomias”.
Na verdade, eu também ando tendo problemas em me reconhecer ultimamente e olha que sou um ótimo fisionomista.
- “Você está bem?” – ele continuou, já abrindo lugar para o comum.
- “Estou” – novamente eu, no piloto automático.
Ele se afastou e voltou a dançar com o grupo de amigos com o qual estava. Imediatamente, começou a tocar uma versão dos Pet Shop Boys de You Are Always On My Mind, do Elvis. Voltei a fechar os olhos e dancei...como se aquilo fosse parte de um ritual de passagem, o encerramento de um dos muitos ciclos que venho concluindo – às vezes, satisfatoriamente; noutras, deixando um certo rastro de melancolia.
- “Lavando a alma ou é impressão minha?” – ouvi minha amiga
perguntar entre rodopios. Respondi dançando mais.
Já naquela confusa hora de ir embora, ele voltou a falar comigo. Num tom de “pazes feitas”, senti. Perguntou-me se eu conhecia um lugar para “esticar a noite” até alcançar o dia. Lembrei-me de um, dois talvez. Falei um pouco sobre eles, não sem tentar transparecer uma certa distância, dele e desses lugares. Engraçado. Eu costumava conhecer todas essas casas que ignoram o final da noite, mas não as freqüento mais. Fiquei feliz em não poder ajudar.
Entre trocas de tíquetes de chapelaria e acertos de última hora com minha amiga, ele me contou que talvez mude de estado, vá trabalhar em Brasília.
- “Você deve saber que eu não gosto do faço...”, ele engrenou. “Mas dá dinheiro e...”
- “Dinheiro pode ser um bom critério para continuar”, cortei
delicadamente.
Eu não sabia que ele não gostava do que fazia. Talvez isso tenha ficado entre as coisas que ele não me disse a seu respeito. Mas agora, para ser honesto, não importa mais.
Desci as escadas em direção à saída sentindo-me bem quanto ao saldo desse “reencontro”, mas um tanto pensativo por ter fechado mais um ciclo tendo de deixar mais um rastro de melancolia.
Escrito por De Luxe às 18h58
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