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São Paulo, em algum ponto no início deste ano.
O que dizem os olhos
Inspirado num poema de Rumi e na manhã na praia com Tracy
Não foi sempre que tive a chance de ver seus olhos de perto para ter certeza se são tão profundos quanto me lembro agora. Ou se convidam à escuridão que dispensa a luz, ou azuis, ou verdes, ou os mais lindos que já vi.
Eu os vi fechados, bem de perto, em sono quase imperturbável. Quando toquei timidamente seus cabelos.
Os vi em movimento, pedindo-me e oferecendo-me gentilezas. Quando me pareceram brilhantes.
Os vi noutra vez ainda, atentos. Quando tive a confortável certeza de que estava sendo ouvido.
E os vi comovidos, em encantamento e surpresa. Quando percebi que tinham algo que eu nunca descobriria.
O que os olhos não dizem.
Como esquecer, onde estão, se inspiram palavras ou fazem perder o sono, se os meus olhos os alcançam.
Criei por você um carinho, um gosto, uma beleza, uma fuga. Peguei breve carona na sua liberdade.
Mas não me leve a mal.
Só seja gentil e aceite este carinho e esta predileção, tão inesperados e sem interesse.
Agora eu sei que acaba. E sinto próximo um longo período de perturbadora paz. Sem sofrimento, amor, olhos ou lágrimas. Agora eu sinto a melancólica vitória. O coração esvaziar-se e a memória se aprontar para receber mais um hóspede que pretende estadia por tempo indeterminado.
São Paulo, hoje.
“Now I am sober. There is only the hangover and the memory of love. And only the sorrow”.
Rumi

Escrito por De Luxe às 18h38
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Question: Who is "Quest"?
Andam deixando comentários anônimos no Fora do Gancho... Assinam "Quest". Question: Who is "Quest"? Amigo ou inimigo? Conhecido ou estranho? Alguém cujas características tiveram versão minha descrita em um dos meus textos ou um simples internauta entrando em mais um blog? Mistério... O Prince tem uma música para isso e ela diz: "What is the answer 2 the question of U? What do I look 4? Why should I do?"...
Intrigado (na medida),
De Luxe
Escrito por De Luxe às 17h41
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O mistério do superstar – parte 1

Vocês já se sentiram tendo ido longe demais, e gostado disso? Já se sentiram intrépidos, audazes e corajosos? Desceram ao mínimo múltiplo comum da exposição e conseguiram voltar ilesos, (quase) sem nenhum arranhão – a ponto de poder fingir que não foram vocês? É delicioso. É como marcar um encontro às escuras sendo que a gente sabe quem é a pessoa e ela não nos conhece. Dá um certo poder, um ponto a mais, uma vantagem na largada. Quase uma poli position. Pois sábado – eu e meus sábados...– isso, de certa forma, aconteceu. Senti-me uma espécie de Indiana Jones violando o Templo da Perdição.
Eis o caso: existe por aí um tal cara que é considerado por 11 entre 10 pessoas que eu conheço “o” homem mais lindo do mundo (nota: o exagero é proposital, para dar emoção à narrativa). Ele nem sempre está, mas quando está sempre causa alvoroço. Dizem que ele é legal, dizem que ele é fofo, dizem que ele é inacessível, dizem que ele é “sossegado”, dizem que ele é gay...Dizem. Saber ao certo, ninguém, eu ousaria afirmar, sabe. Ocorre que toda essa especulação conferiu ao Mr. Superstar uma aura de mistério, uma obscuridade extremamente instigante, que o colocou definitivamente na fantasia do coletivo. Juro, nem Prince, com suas esquisitices adoráveis e mudanças de nome para símbolos impronunciáveis, conseguiu gerar névoa tão densa sobre sua persona. As pessoas falam de Mr. Superstar – inclusive eu, devo admitir – se perguntando como seria beijá-lo, como seria acordar com ele, transar com ele, como seria ele saindo do banho... Elas se imaginam nessas situações e quase que experimentam, tirando sensações de suas próprias imaginações, o prazer e status que a realização dessas fantasias traria. E elas fecham os olhos, comprimindo-os e franzindo a testa, e lambem os lábios em quase gozo – claro que isso tudo culminando numa deliciosa risada, tão gostosa quanto o próprio objeto em si.
Como disse antes, eu também faço parte desse time de olhos comprimidos e gosto fantasioso na boca. Mas no meu caso o agravante – se é que se pode chamar assim – é que pessoas como Mr. Superstar sempre estiveram num panteão que ostenta a placa “proibido para você” na porta de entrada. Eu sempre convidei todos esses homens lindos para entrar em minhas fantasias mais tórridas, mas sempre me recusei a sequer chamá-los pelo nome para não romper a fina estrutura da bolha de sabão que os envolvia em meus pensamentos. Fantasia, pura e irrealizável. Como ir a uma colônia de férias na Lua. Porém, algumas sessões de terapia depois, confesso que tenho me sentido um tanto audacioso – por isso as perguntas que abrem esse texto. Corajoso mesmo, desejoso de pular pelos fundos do panteão habitado por homens perfeitos, nem que seja só para ver como é lá dentro, para ver se o interior corresponde às minhas fantasias. Ensaiei uma primeira invasão sábado passado. Cheguei até Mr. Superstar de maneira “muito casual, muito lá, lá, lá” – como diria senhorita Carrie Bradshaw, de Sex And The City – e perguntei seu nome – o que, óbvio, eu já sabia, mas não daria esse braço a torcer. Apresentei-me, e usei um interesse em comum que temos no momento – nossas profissões se cruzaram por conta de um certo fórum mundial de cultura – para engatar um papo, como se diz. Recepção morna quase quente. O que foi bem razoável, eu diria. Afinal, para quem esperava 17 segundos de conversa, mais de um minuto é lucro irrefutável. E devo dizer que ele é, de fato, ainda mais lindo a menos de um palmo de distância. Sua voz tem aquele tom grave na medida e seus olhos passam a doçura, a distância e a tristeza típica de olhares castanhos que eu desconfiava ter percebido mesmo nas inúmeras vezes que o avistei de longe. O mistério do superstar estava dando sinais de solução. Uma solução talvez longe da alcova, ou mesmo do calor de beijos, mas uma solução – no velho e bom (e civilizado) campo da conversa.
Escrito por De Luxe às 17h23
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O mistério do superstar – parte 2 (nem tão misterioso assim)

Mas – eu e meus “mas”... – como todo superstar, Mr. Superstar tem seus fãs. E eles, por sua vez como todos os fãs, são possessivos, deslumbrados e um tanto ignorantes. No primeiro minuto de nossa conversa alguns amigos dele – admiradores tão confessos quanto ridículos – assumiram seus postos em torno do inimigo – no caso, eu, o intruso, o violador, o ladrão do templo sagrado da beleza dele. Os sacerdotes raivosos fincaram perto de nós e, por vezes, distraíram a atenção de Mr. Superstar a ponto de eu me sentir obrigado – por delicadeza e autodefesa – a abreviar o que estava dizendo. Não demorou muito até o bote, a primeira investida dos romanos sobre Tróia. Quando da pista ouviu-se os primeiros acordes de uma música pela qual “os fãs” parecem dividir predileção, uma delas – a mais agressiva deles, passou por nós e levou o Superstar com ela. Rápida como um raio, truculenta como um dinossauro. Admirável cara de pau, deprimente falta de educação e polidez. As mesmas que faltam aos admiradores doentios que querem fios de cabelo de seus ídolos. Assustado, mas achando graça da infantilidade do ato, sorri e soltei um “sinta-se à vontade”. Ele – num misto de constrangimento e gentileza” devolveu o sorriso e seguiu – numa subversão de posições – seus fãs. Eu sou do tempo que acontecia o contrário, mas os tempos mudam...
Pus-me a pensar e observar Mr. Superstar pelo resto da noite. É claro que minha abordagem tinha segundas intenções. No entanto, é igualmente claro que eu não pretendia que ninguém exceto ele percebesse isso. Não tive uma segunda chance. Devo mesmo dizer que pensei ter visto em vários momentos a líder dos fanáticos dizendo coisas a ele sobre mim. O que pode ser minha paranóia tentando ocupar o lugar da minha sensatez, mas que o Superstar nunca mais chegou perto deste que vos escreve, isso eu posso afirmar. Paciência...
O bom de tudo isso é que me senti tendo ido longe demais, e gostei disso. Senti-me intrépido, audaz e corajoso. Desci, pela primeira vez em muito tempo, ao mínimo múltiplo comum da exposição e consegui voltar ileso, (quase) sem nenhum arranhão – a ponto de poder fingir que não fui eu. Foi delicioso.
Em posse de um pequeno tesouro do Templo da Perdição,
De Luxe
P.S. Uma ou duas outras evidências ainda naquela noite confirmaram minha tese do ciúme dos fãs, mas o mistério do superstar é menos mistério para mim agora.
Escrito por De Luxe às 17h21
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