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Mais um final de semana como todos os outros: diferente

É no mínimo curioso como a contagem do tempo me persegue. Tenho me visto freqüentemente em situações que me ligam diretamente a “um ano atrás”. A festa que acontece de novo, o aniversário de novo, a Parada Gay de novo, e assim eu sigo comparando como era minha vida e como eram as pessoas há um ano. É desesperador e cheio de surpresa descobrir o quanto tudo pode mudar em apenas um ano. Quatro estações se mostrando capazes de, mais do que nunca, fazer nascer, amadurecer, secar e morrer sentimentos, sonhos, certezas, pessoas. Sábado passado uma amiga comemorou mais um ano de vida, no mesmo apartamento no qual tinha reunido os amigos para a mesma celebração no ano passado. Ela era casada, e eu amigo íntimo do casal, os amigos dela tinham se tornado amigos meus também. Naquela época havia vinho, e eu bebia, havia música, e eu dançava, havia conversas da quais participava e alegria no ar.
Neste ano foi diferente.
Em um ano, a vida dessa amiga mudou do vinho que eu bebia para um outro líquido que eu não consigo distinguir o que é. Dos amigos antigos, poucos estavam lá – e entre esses poucos, eu – ela não é mais casada e eu não sou mais íntimo. Havia ainda vinho, mas eu não bebi. E a música eu não dancei desta vez. Um outro amigo levou o misterioso namorado, mas ele continuou misterioso, quase que escondido o tempo todo na cozinha, e eu, mais uma vez, não me senti à vontade de ir conversar com o casal, talvez eu tenha feito o certo. Este ano não dava.
Se as poucas pessoas que eu conhecia no ano passado por sua vez levaram pessoas novas em suas vidas e eu não tinha muita coisa para contar, o que poderia eu ter feito a não ser observar tudo de um canto intrigado em saber se eu também mudei? E se mudei foi para melhor? Para pior? Há um ano eu fazia parte do núcleo central desse universo, hoje eu ocupo algum lugar na última fileira. Mas um lugar que eu reconheço de certa forma, de tempos outros da minha vida. Estou com ciúme? Nostálgico? Foi uma experiência estranha sentir-me tão deslocado numa sala que já havia me recebido tantas vezes.
No dia seguinte, domingo, foi dia de Parada Gay. E de novo pus-me a pensar como estavam as coisas e as pessoas exatamente há um ano. “All the people I was kissing, someone are here and someone ar missing”, como diz aquela música dos Pet Shop Boys. É engraçado, esse dia costumava ser o de encontrar as pessoas com as quais tinha transado no último ano. Desta vez eu não encontrei ninguém. Devo confessar que há um tempo não passo pelo constrangimento de cruzar alguém que eu já tenha visto nu...O que por um lado é bom. Embora, por outro, faça falta para o ego.
Hoje, segunda-feira, tive mais um dia daqueles. Não conseguia sair da cama. Até que me lembrei que tinha terapia. Então levantei, tomei, banho, esqueci de escovar os dentes e peguei um táxi. No caminho, o taxista me perguntou qual caminho eu preferia. Disse que qualquer um que fosse curto e rápido. Ele me propôs dois ou três, e brincou: “São tantos caminhos que a gente até se perde, né?”. “É”, respondi. “É...”.
Escrito por De Luxe às 17h49
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