foradogancho
  

Olha a última...

 

Eu já o tinha visto algumas vezes – hoje tento me lembrar quantas, só para ter mais alguma coisa no que pensar –, mas nunca tinha me passado pela cabeça falar com ele. Por algum motivo desses da vida (que eu acabo descobrindo qualquer dia nem que seja só para acabar com a graça do acaso), nossos caminhos pareciam não estar destinados a se cruzar. Acontece que estavam. Certo dia, dentro daquele recinto tão pequeno, mas que pode ser cenário para relacionamentos marcados pelas maiores distâncias, viemos ambos parar na mesma quinta-feira sem graça, lado a lado no balcão. Ele estava sozinho e eu, além disso, sentia-me à vontade comigo mesmo, achando que poderia fazer qualquer coisa – até adentrar o improvável, brincar um pouco com o destino e conversar com aquele coroa modelo “enxutão” cujo caminho jamais cruzaria o meu. O que teria eu a perder? No final da noite eu teria um tipo a mais no meu currículo – que, garanto, é vasto deles.

No entanto,por mais que eu queira às vezes não tenho inclinação para a gratuidade – característica da qual me orgulho e não alternadamente. E o que era para ser um passatempo acabou se transformando numa conversa surpreendentemente cativante. Um bate papo dos bons no qual, por vezes, o jogo cedia espaço para a sinceridade, e aquela condescendência besta típica do flerte simplesmente não ousava aparecer, e no lugar dela surgiam embates excitantes entre pontos de vistas bastante vigorosos. Foi o que se pode chamar de Acontece que terminou na cama. Não sei se isso deveria ou não ter acontecido. Hoje tenho sérias dúvidas. Mas, enfim, sempre nos fazemos perguntas que começam com "será" toda vez que algo não sai como previsto ou desejado. Conjecturas. Ensaios inúteis de posturas que já não interessam mais.

E eu, que sinceramente achava que o constrangedor dia seguinte não nos incomodaria a ponto de nos envergonhar irreversivelmente, fui pouco a pouco me deparando com o contrário.  Encontramo-nos outras vezes e tudo parecia natural e sem marcas. A gentileza e a cordialidade – quero crer espontâneas e sinceras – marcavam primordialmente nossos cumprimentos tímidos. E se pouco falávamos um com o outro em muitas das vezes, eu tinha certeza que era porque não sabíamos muito o que dizer. E no fundo dos pensamentos, eu guardava aquela tola esperança de eu poderia ser a pessoa a dar o primeiro passo para mudar essa condição, se eu quisesse. E como devo confessar, eu não sabia muito bem se queria, valia a máxima: o que não tem remédio...

Assim as coisas seguiram até que saímos de novo uma segunda vez, depois uma terceira, quarta, acho que uma quinta se não me engano. E cada vez mais eu desfrutava da estranha e suave sensação de não estar apaixonado – nem por isso enojado. Paixão e repúdio sempre foram os únicos lugares nos quais eu me abrigava das pessoas com quem me relacionava. E, de fato, eu não sabia do imenso e arejado quintal que separa os dois. Mesmo sem sentir necessidade de vê-lo, tê-lo ou toca-lo, quando isso acontecia era como se eu tivesse saciado um enorme desejo. Ele me dava assunto, memória e experiência. Estar com ele era como um laboratório. Melhor, era como um campo de testes. Eu podia colocar em prática, ou ao menos simular com um alto grau de realismo, como é ser um amante, um namorado, parceiro ou seja lá que nome se dá a isso. 

Claro que a participação dele foi fundamental. Tudo isso que eu descrevo e confesso só é possível a dois. E ele era, admito, um parceiro interessante. Não se trata de nada que ele especificamente fazia – por vezes ele era bem óbvio e frustrante na verdade –, mas a presença dele era acolhedora, simpática e engraçada. E o peito dele era macio e bom de recostar a cabeça e dormir.

Muito pouco provavelmente namoraríamos ou sequer teríamos um caso mais longo. Mas eu estava começando a cogitar a possibilidade dele ser uma espécie de sex friend. Às vezes sex, às vezes friend...Quem sabe até somente friend – mas dos bons, daqueles que te conhece, conhece seu corpo e as expressões que você faz quando goza. Aquele tipo que se preocupa com quem você anda saindo porque sabe também do que você não gosta...

Em resumo, achei que meus 31 anos, e mais os 47 dele, pudessem ter feito mais por nós. Mas as coisas não seguiram esse rumo. O que é uma pena.



Escrito por De Luxe às 14h35
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Finalmente eu consigo escrever de novo. É claro que não parece que vai ser fácil. Escrever é como andar, se a gente fica muito tempo parado é difícil dar o próximo passo, parece que atrofia. Mas, por outro lado, quando a gente recomeça dá pra sentir uma “sensaçãozinha” de prazer, um prazer que tem a ver com esperança. Afinal, imagine quantos passos ainda não estão por vir depois que a gente “tira o gesso”? Então vamos lá. Deixa ver se eu tiro logo o meu.

 

Dia desses um (super querido) amigo me ligou – fazia tempo que a gente não se falava – e me disse que a última vez que esteve aqui no Fora Do Gancho percebeu que eu estava “às voltas com a paixão”. Eu rebati dizendo que fazia taaaanto tempo que eu não escrevia, leia-se, não devia ser mais com isso que eu estava “às voltas”. Mas já na hora eu consegui concluir – com ele do outro lado da linha – que, na verdade, eu estou SEMPRE às voltas com a paixão. De alguma forma, seja por gente, filme, coisas – “aromas, luz, metal”, diz o Neruda num poema dele. É como se eu fosse uma espécie de teórico do amor. Já pensei, li e escrevi sobre os mais diversos tipos de amor, e já fiz na minha cabeça as mais diferentes combinações: amor com sexo, amor com admiração, amor com sofrimento, amor com dor (tão cafona quanto inevitável), amor com comida, amor com música, enfim, por aí vai.

Prática, PRÁTICA, mesmo com amor eu não tenho muita. Tenho bem pouca para ser sincero. Quase nunca tinha gente do outro lado da linha quando eu me apaixonava – Platão explica. E aí, quando eu pensei e falei isso com meu amigo, me deu um cansaço. Um cansaço grande e sem rodinhas...sem alça, um cansaço de papelão...na chuva.

A paixão e o amor são coisas legais, essenciais e inevitáveis, mas fazem a gente perder um tempo que nem sempre a gente tem. Aí rola o prejuízo. Digo isso porque às vezes o desgaste é tão grande que não sobra ânimo nem para escrever sobre isso no blog da gente, sabe? Olha para isso aqui, faz um puta tempo que eu não escrevo. Eu não leio também há um tempão. Não vou ao cinema, demorei meses para levar a TV do meu quarto para o conserto, não sobrou um tempinho para cortar o cabelo. Estou me sentindo uma múmia no meu trabalho, precisando dar uma reciclada no ar, nas funções, nas minhas capacidades, no meu chefe, e só consigo falar de amor e paixão na terapia. É um grande e teórico fardo que eu carrego e que prende toda a minha atenção. E vejam que não foi ninguém que me deu esse trabalho todo, é só mesmo preocupação com a idéia do amor, a idéia da paixão. Um eterno “como seria?”. Não estou aqui tentando camuflar um conselho do tipo “não percam tempo com o amor e a paixão” – mesmo porque se conselho já é algo que quase nunca vale de nada, esse valeria menos ainda. Mas é uma constatação desagradável de que no que diz respeito a essas coisas do coração não vale muito a pena pensar sobre elas. Ou você faz – vai, escolhe alguma vítima, cair de quatro por ela, azucrina, liga sem parar, tenta seduz, arrasta pra cama, segue nas ruas, enfim, concretiza o negócio nem que seja à força –  ou então, meu amigo, vai levar logo sua TV do quarto para o conserto. E, como já disse, eu me peguei entre as duas coisas, perdendo meu tempo.



Escrito por De Luxe às 10h25
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