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A carta seria esta
Por meio da palavra escrita – que eu não domino, mas sou mais habituado – talvez eu consiga finalmente me explicar. Uma vez que pessoalmente, devo confessar, eu fui um desastre todas as vezes que eu tentei – ao menos com você. É incrível como minha verve me abandonava quando eu estava com você, mas essa é outra história, enfim...
Embora eu não me lembre de quase nada do que eu disse naquela quinta-feira no Gourmet, sei que o conteúdo da conversa foi o mais nefasto que poderia ser, pelo menos para mim. Sei que as coisas que eu disse devem ter sido, no mínimo, desagradáveis. Mas saiba que foram palavras absolutamente desencontradas, mas não exatamente equivocadas. De certa forma, há um tempo eu queria passar a você aquela mensagem. Fazer você saber da minha mágoa – ainda que ela não faça sentido para você –, do meu ciúme – ainda que ele não faça sentido para mim – e da tristeza que eu sentia todas as vezes em que a gente se encontrava e mal se cumprimentava. Eu sempre achei que o desfecho de uma história que oscilava entre a intimidade da cama e a falta de diálogo não tinha muitas chances de ser positivo Talvez o que eu não soubesse é que seria eu quem “piscaria primeiro”, quem deixaria – ou faria – a casa cair, como dizem. Mas, enfim, foi assim. E eu não posso fazer o tempo voltar.
Não sou bom em dissimular sentimentos, não tenho talento para dar troco na mesma moeda e sou incrivelmente inábil para agir naturalmente se o que eu sinto me desestabiliza. E como o máximo que o ser humano conseguiu atingir em sofisticação de formas de defesa foi o ataque, eu não fugi à regra. Joguei-me na vala comum da árdua condição do ser humano e fui o mais humano possível – com isso significando descontrole, desespero e egoísmo.
Conheci muitas pessoas que me disseram não acreditar nas desculpas – houve até os que ilustraram seu ponto vista soltando a máxima de que “depois que inventaram a desculpa, os safados nunca mais apanharam na cara”. Não sei se concordo com isso. Já pedi muitas desculpas, e já desculpei outras vezes também, sempre tentando ter em mente que a vida é maior que todos nós e por isso é perda de tempo guardar rancores. Às vezes é difícil, eu sei. Mas espero que você não me tenha em baixa conta depois do que aconteceu. Possivelmente você não deve estar muito preocupado com isso. E eu posso entender. Assim como é mais simples o papel de quem presencia um surto, é mais confortável ser a pessoa que “tem a razão”.
Enfim, divagações à parte, me lembro ter dito que te odiava – o que na hora era verdade e às vezes ainda é. Mas igualmente reconheço que sua participação em mais esse sentimento meu é mínima, para não dizer nenhuma. Lembro também que pedi que você nunca mais “olhasse na minha cara” e acho que isso não será difícil para você e por vários motivos. Além de cuidar para que não nos encontremos mais no bar – as quintas, não é? –, a julgar pelo semblante calmo e inabalável que você sempre ostenta, não dirigir a palavra a mim não será tarefa complicada para você. É engraçado como uma das coisas que está mais viva na minha memória é quando você disse que “não se importaria” se me visse com outra pessoa. Você tem sorte, meu caro. Importar-se com isso é doloroso e inútil. Agindo assim, você não se desgasta e economiza tempo. Há pessoas que chamam isso de maturidade. Eu não sei ao certo...Mas um dia, quem sabe, eu chego lá.
Abraço.
Escrito por De Luxe às 15h58
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