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Back to life...back to reality...
Você justificou sua decisão com palavras emendadas, ditas de atropelo, de forma um tanto angustiada e num tom de quem queria me proteger de uma maldição: o gene da promiscuidade ativo no seu DNA. Bem, eu não nunca pretendi usar a palavra “promiscuidade”, talvez por achá-la forte demais, mas devo confessar que é no mínimo curioso que você já tenha “trocado fluídos” – Deus queira que esse seja o melhor termo – com cinco pessoas do meu círculo de amizades. E gente que eu vejo sempre, que gosta de me encontrar. Onde será que eu estava em cada uma dessas vezes? Um deles eu até considero meu irmão, aquele irmão que se a gente não teve naturalmente trata de arrumar, sabe? O outro, bom, esse não é amigo exatamente, mas gosta de me encontrar também. Até arruma jeito para isso. Vem ao meu trabalho, passa para o cafezinho. Passa mesmo. Passa para rirmos um pouco. Esse trabalhou comigo e chorou no meu ombro quando foi para outro emprego dizendo que sentiria minha falta. E mais: você é uma paixão para ele. Não a única, é verdade – certo ele –, mas é alguém que ele cultiva, se importa, não esquece, não quer esquecer e de quem me falou inúmeras vezes. Eu até já te conhecia um pouco. Você é “complicado”, “não se liga em ninguém”, “não quer – ou não consegue – namorar” etc. etc. etc., não é? Pois bem, eu ouvi tudo isso. E duas vezes. Dele e depois de você. E dele eu, sem orgulho admito, que, muitas vezes, ouvi sobre você com desinteresse e até uma certa impaciência, sequer sonhando que um dia essas informações viriam a ser importantes para mim, dando mesmo conselhos para que se libertasse de uma pessoa tão indecisa e potencialmente nociva como eu te imaginava. Estava certo?
Mas vamos falar de mim. O que você acha que passa pela minha cabeça? Você pensa que não me incomodou, de fato, sentir-me apenas mais um da banca que você “rodou” – banca essa que você “fechou bem”, como disse para mim com um sorriso jocoso, no que eu respondi: “não se preocupe, há muitas outras pessoas ainda nessa banca se você quiser...e se elas te quiserem, claro”. Você acredita mesmo que isso tudo não me desanima e preocupa? Acha que eu não percebi o quão sintomática foi a cena de você colocando e tirando as roupas no mínimo umas três vezes durante o dia em que passamos juntos, anunciando repetidamente a sua partida? Não pensa que eu não percebi que o melhor jeito de você não ir era simplesmente não insistindo que você ficasse? E que essas coisas, na verdade, eram indicativos precisos de sua depois comprovada personalidade? Sou instável, atrapalhado, inexperiente, “louco, cego e viciosamente indelicado”, como diz a canção, mas não sou burro. Tolo provavelmente, mas não burro. Por que você acha que mesmo depois de postos esses “pequenos inconvenientes” eu ainda te liguei – além da minha tolice, evidentemente? Simplesmente porque apesar de saber que você estaria longe de ser o que eu esperava e precisava, eu não me furtaria de experimentar o que poderia estar reservado de bom para mim. Mesmo que não durasse, que não fosse futuro, mesmo que eu perdesse algo valioso na troca, ainda assim não seria mais valioso do que dormir sabendo que de certas coisas não se foge. Liguei para você porque sabia que isso era a coisa a se fazer, eu não tinha escolha. Contentei-me com o fato de que o resto ficaria para depois, esperando naquele lugar que a vista da gente nunca alcança. Eu desconfiava do que seria – acho mesmo que eu sabia –, mas não ignoro encontros. Não ignoro as pessoas. Aprendi a me esforçar para olhar a paisagem durante a viagem. Afinal, quem é que nos garante que os pontos de parada não são, na verdade, melhores e mais interessantes que o lugar de destino?
Escrito por De Luxe às 19h24
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