Essa é por minha conta
Por onde andarão as paixões semanais? Aquelas intensas e ofuscantes, que nos fazem resumir o mundo e destacar no cenário alguém que a gente nunca viu mais gordo. Alguém que a gente idolatra sem conhecer – e que, no final sempre se descobre, não quer conhecer.
Por onde andarão aquelas paixões que passam? Dias, semanas depois. Assim que o olhar é interceptado por outro sinal, outra mensagem. Nova, fresca e de novo cheia de possibilidades de loucura, intensidade e cegueira.
Por onde andarão aquelas paixões que não deixam cicatriz? E se deixam são tão adormecidas sob o peso do tempo que mais lembram um corte da infância ou um murro muito bem revidado – aquelas que a gente lembra com orgulho e uma saudade tranqüila e estéril.
Por onde andarão aquelas paixões que só despertam para manter o músculo quente e pronto, tornando-nos atletas preparados para o salto e a corrida, a qualquer momento, potenciais como uma mola encolhida, prontos como uma bala no gatilho?
Por onde andarão aquelas paixões que ignoram o futuro, logo, o resultado? Que não se perdem em delinear o desejo, que querem por querer. São caprichosas, frívolas e ao mesmo tempo avassaladoras.
Por andarão aquelas paixões que mudavam? Muitas vezes. Sem percebermos. Fulano, beltrano e depois cicrano, aquelas que nunca caíam no mesmo lugar duas vezes.
Por onde andarão aquelas paixões de honestidade desconcertante?
* * *
Hoje é tudo sério e velho.
Hoje pesa, e arrasta o tempo que nem corrente, pensa no futuro. Hoje é injustiçado, é injusto, invade, toma, lesiona, chateia, incomoda, envergonha.
Cadê a paixão sem-vergonha?
Quem tirou o pudor da caixinha e resolveu maquiar tudo com ele como se faz com almofadinhas de pó de arroz?
Maturidade, coerência, racionalidade, prioridades. A sedução anda tão chata e perigosa quanto a própria certeza de que não devemos ir atrás de quem não nos quer.
Hoje é cheio de compromissos, códigos, ética, Natal e Ano Novo.
Cadê a paixão que não saía na fotografia? Hoje todo mundo quer procedência. Checam-se os antecedentes – e inevitavelmente acaba-se descobrindo que as pessoas têm péssimos antecedentes.
Quanto esqueleto no armário...
O tempo vai passando e a idade do mundo avança, acumulando experiências ruins, desassossegos e desastres na vida de todo mundo, especialmente dos mais jovens. Pobres. Já sofreram tanto que hoje em dia resolveram não valer mais a pena, resolveram ser espertos, rápidos, líquidos.
E quem não está cansado mais cedo ou mais tarde se cansa.
E quem está cansado assume uma aparência que faz a gente ter vontade de chorar.
Escrito por De Luxe às 17h31
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